4/22/2006


MAÍRA – A GUERREIRA AMAZONA
Episódio 3 – O diário de Sir Burton


Maíra percorria em silêncio os corredores do palácio. Provavelmente nunca se acostumaria com a grandiosidade do local.
Algumas amazonas passavam por ela e a cumprimentavam. Além de ser filha adotiva da rainha, a garota ganhara o respeito das outras graças ao sucesso de sua última missão.
Os corredores pareciam formar um labirinto no qual qualquer um poderia se perder. E, a cada vez que os percorria, Maíra encontrava salas que não conhecia. Dessa vez, não foi diferente. Maíra deparou-se com o que parecia ser uma biblioteca. Livros, em sua maioria muito antigos, avolumavam-se nas paredes laterais.
A garota aproximou-se de uma estante e retirou um livro a esmo. Era um pequeno volume encadernado em couro. Tinha o formato estreito, como se tivesse sido feito para ser colocado no bolso.
Maíra abriu e viu que se tratava de uma espécie de diário, escrito a lápis.
- Olá, menina.
Maíra pulou de susto. Era sua mãe adotiva, a rainha.
- Não, não se assuste. Está tudo bem. Você, sendo minha filha, tem direito de conhecer alguns segredos. Lembra-se que uma vez você me perguntou se algum homem branco já havia entrado na cidade das amazonas?
- Sim. – recordou Maíra.
- Um único homem branco penetrou por nossos portões. Sua história está contada nesse diário.
- Posso ler?
- Pode. Fique à vontade.
Maíra sentou-se em uma cadeira, apoiou o livro na mesa de mármore e mergulhou na leitura.


DIÁRIO DE SIR. RICHARD BURTON

A lenda das amazonas é uma das mais antigas do mundo. Remonta aos antigos gregos, mas permaneceu por séculos como fruto da imaginação prodigiosa dos helênicos, até ser renovada pela descoberta do Novo Mundo. Um navegador chamado Orelana afirmou ser sido atacado por mulheres guerreiras enquanto navegava um rio que, por isso, chamou-se Amazonas.
Agora, séculos depois, um homem afirma ter informações concretas sobre o paradeiro das amazonas. Seu nome é Lopez e ele garante que a tribo de mulheres guerreiras se encontra no extremo norte do país, na província do Grão Pará, mais especificamente na Serra do Tumucumaque.
Baseado nas informações que lhe foram fornecidas pelos índios, ele pretende me levar até lá. Saímos do Rio de Janeiro há alguns dias. É possível que Lopez seja apenas um trambiqueiro, mas conhecer a Amazônia vale o esforço e pode me fazer esquecer o enfadonho serviço de cônsul britânico no Brasil. Depois de ter percorrido a África em busca da nascente do Nilo, meu sangue parece ter sido infectado com a doença da aventura...

* * *
Aportamos em Belém do Grão Pará. Ficamos em um hotel próximo ao porto e conhecemos um local pitoresco que os habitantes locais chamam de Ver-o-peso. São barracas e mais barracas de comidas típicas, peixes, frutas e verduras. Experimento o suco de uma fruta chamada cupuaçu e uma comida pesada que eles chamam de maniçoba. É uma espécie de feijoada, mas tem folhagem verde-escura no lugar do feijão. A mulher da barraca diz que a folhagem é retirada da mandioca e que leva uma semana cozinhando para fazer evaporar o veneno. O composto tem aspecto desagradável de excremento, mas o gosto é bom.
Uma outra senhora me vende uma pomada feita de gordura de boto, um golfinho local e me garante que tem efeito milagroso sobre a vida sexual de quem a usa. Se soubesse que traduzi o Kama Sutra para o inglês talvez pensasse duas vezes antes de me vender esse tipo de coisa.

* * *
De Belém, pegamos um navio para Santana, no norte do Grão- Pará. É um porto pequeno, mas de boa profundidade. Apesar disso, tem pouco movimento. Aqui recrutamos três homens para nos acompanhar. A partir de agora não há mais navios e temos de seguir em barcos a remo.

* * *
Estou fora de forma. Estamos embrenhados na floresta há dois dias e já começo a sentir os sintomas de fadiga. O tempo é cruel e não respeita patentes. Avançamos lentamente pelo matagal. A floresta aqui é bem diferente daquelas da Europa ou da África. As árvores são muito altas, o que não impede a existência de vegetação rasteira. Assim, temos de abrir caminho por um emaranhado de folhagens, raízes e cipós, que muitas vezes se tornam um obstáculo instransponível, fazendo com que desviemos diversas vezes do caminho.
A noite cai repentinamente sobre a floresta, como se o céu foi fosse coberto por um véu negro.
Nossos guias não se atrevem a viajar à noite e nem eu os forçaria a isso. Sete horas da noite e a floresta já está tomada de tal escuridão que é impossível enxergar dois palmos à frente e os insetos tomam o poder, atacando de todos os locais possíveis. Pouco antes que caia a noite, nós paramos, montamos acampamento, e acendemos a fogueira, tomando o cuidado de limpar a área em volta das milhares de folhas que caem continuamente das árvores, para evitar incêndios.
Sons estranhos, como tambores, retumbam na escuridão. Os caboclos dizem que é o Curupira que testa a resistência das árvores antes das chuvas. Dizem que o Curupira é um menino de cabelos de fogo e pés para trás.
De fato, chove torrencialmente e a floresta vira um inferno. Dormimos em redes e ficamos ensopados. O barulho das gotas d’água desabando sobre as folhas dá a impressão de que estamos rodeados por um exército de pequenos homens em dança de guerra. No meio da noite a floresta alaga e somos obrigados a levantar mochilas e todos os outros pertences, pendurando-os no alto das árvores.
A chuva pára, mas, ensopado, sou dominado por um medo ancestral da rede ser invadida por uma cobra. Os homens acordam cedo e ouço-os falando baixo. Pergunto a Lopez sobre isso.
- Eles falam sobre o Mapinguari. – responde ele.
- Mapinguari?
- É um ser da floresta. Dizem que se parece com um macaco peludo, mas tem mais de dois metros e não possui pescoço, de modo que a cabeça emenda diretamente com o ombro.
- Apavorante. – comento.
- Ainda não ouviu a melhor parte. Conta-se que o Mapinguari tem a boca na barriga. Uma bocarra enorme, cheia de dentes finos como os de tubarão e de onde saiu um hálito fétido...

* * *
A comida que trouxemos acabou. Estamos nos alimentando de peixe, camarão e uma fruta escura de nome açaí, que os caboclos esquentam para que a polpa amoleça e espremem na água, formando um suco grosso e nutritivo. Felizmente, essa fonte de alimentação é abundante.

* * *
Lopez está tendo febre toda noite. Ele tem calafrios e balbucia coisas frases ininteligíveis. Os nativos dizem que ele está com malária. Eles preparam chás com plantas da floresta, mas nada parece resolver.

* * *
Lopez desapareceu durante a noite. Enquanto dormíamos, ele provavelmente caiu de sua rede e saiu em delírio pelo breu da floresta.

* * *
Estou dormindo quando sinto algo apertando minha garganta. É Lopez. Ele tem os cabelos desgrenhados e baba, como um cão raivoso. Nós lutamos e os outros acordam. Ele finalmente consegue me imobilizar e, pegando uma adaga, prepara-se para perfurar o meu crânio quando um caboclo o antige com uma pedra. Lopez cai ao chão e os outros sobre ele. Depois de uma luta feroz, o pobre homem acaba morto.

* * *
Os guias estão tensos e falam entre si. Dizem que a expedição é amaldiçoada e que os seres da floresta se voltaram contra nós. Eles tentam me convencer a voltar, mas afirmo categoricamente que irei até o fim, até o meu objetivo ou minha morte.

* * *
Estou perdido. Os nativos acordaram antes de mim e fugiram. Levaram todas as coisas, exceto minha mochila, a rede e um facão. Dentro da mochila tenho uma troca de roupa, uma bússola, um cantil e um caderno, mas não comida. Estou perdido.

* * *
Já faz dois dias que estou perdido. Tenho procurado andar na direção noroeste, onde, teoricamente, fica a cidade das Amazonas, mas não há pontos de referência e mesmo a bússola é de pouca utilidade, pois a densidade da floresta constantemente me desvia do caminho. A fome corrói meu estômago, mas felizmente foi possível achar água limpa em uma fonte e pude encher o cantil.

* * *

Três dias perdido. Achava que morreria de fome quando encontrei uma árvore frondosa, em formato de pinheiro, repleta de frutos vermelhos que aqui chamam de jambo. Embora a casca seja vermelha, o fruto é branco por dentro e muito agradável ao paladar.

* * *

Quatro dias perdido. Comi o quanto pude da fruta vermelha, enchi minha mochila com elas e me pus a caminho. Depois de vários dias sozinho, os barulhos da floresta me assustam. De tempos em tempos, ouço galhos quebrando e folhas secas sendo pisadas. É como se estivesse sendo seguido. A floresta parece ter vida e espiona cada passo meu. Em meu estado paranóico, sinto como se os pássaros que cantam e trinam formassem uma rede secreta e mágica de informações sobre o forasteiro que ousa desafiar a mata.
O pior é quando chove.
As gotas fortes da chuva batendo contra as folhas secas formam uma orquestra de sons abafados e assustadores... e me pergunto se seres estranhos não se aproveitam disso para se aproximar e me vigiar.

* * *

Quinto dia. Estou completamente perdido, andando em círculos e voltando sempre para o mesmo lugar. As frutas acabaram e a fome me consome. Também tenho sede e sobrevivo lambendo as folhas molhadas pelo orvalho da madrugada.

* * *

Sexto dia. Sinto febre e calafrios. Embora esteja em pleno Equador, sinto frio como se estivesse no inverno londrino. Vago pela floresta a esmo. Não sei para onde estou indo.

* * *

Sétimo dia. Vaguei o dia e a noite inteira, queimando em febre, assustado com cada som da floresta, tropeçando nos galhos, importunado por moscas que me parecem gigantescas.

Então, quando acreditava que ia morrer, quando caía ao chão, desfalecido, disposto a aguardar pelo fim, vi vultos brancos se aproximando. No começo eram como névoa, mas logo distingui formas e percebi que eram mulheres. Elas deviam estar em carregando em uma espécie de maca. Entramos em uma clareira e visualizei um enorme portão que me pareceu feito de ouro. O portão se abriu para nós e entramos na cidadela por uma praça enorme e suntuosa. A febre me consumia, mas eu só conseguia pensar em uma coisa: finalmente havia chegado à cidade das Amazonas!
Depois disso o véu da inconsciência cobriu meus olhos e adormeci em meio a sonhos dourados.

* * *

Não sei quantas horas dormi. Talvez tenha dormido dias seguidos. Acordo com uma mulher ao meu lado, me oferecendo uma espécie de sopa. Ao contrário do que eu imaginava, ela não se veste como uma deusa grega. Na verdade, ela usa um vestido curto de tecido leve, adornado com penas. Nos pés, usa uma sandália de couro e uma tiara de couro na cabeça.
O quarto em que estou tem teto alto e parece ser feito todo de pedra. Estou deitado em uma cama de madeira nobre enfeitada em alto-relevo com imagens de mulheres guerreiras, preparando-se para a guerra. As figuras parecem saídas de um templo inca ou maia.
Quando me sinto melhor o bastante para poder caminhar, minha enfermeira me leva para fora. O palácio tem corredores largos e compridos e sua arquitetura lembra os palácios incas sobre os quais li diversos relatos.
Mais uma vez me deparo com a praça que vira ao chegar, mas agora, vista sem o véu da febre e da inconsciência, ela me parece incrivelmente bela. Nem mesmos os jardins do sultão de Bagdá rivalizariam com ela. Há belos e poderosos arcos de pedra com imagens em alto-relevo que parecem cantar, na linguagem muda das rochas, os feitos das amazonas. Flores as mais variadas se espalham pelo espaço vazio em tal quantidade que a praça toda parece exalar um perfume inebriante.
Aqui e ali, sentadas em bancos, belas mulheres conversam ou lêem enquanto ando entre elas. Uma delas me inpressiona ao ler um livro aparada apenas na ponta de um pé, tendo a outra perna sobrada, como um iogue.
Atravessamos a praça e entramos naquela que parece ser a construção principal do conjunto. Atravessamos imensos portais de madeira e depois um salão. Finalmente paramos na frente de um trono.
Eu, acostumado a lidar com pessoas poderosas, prosto-me ao chão, mas uma voz suave como a brisa da primavera ordena que eu me levante. Então olho para cima e vejo uma mulher de cabelos longos e pretos. Seus olhos, negros como a noite, são repletos de curiosidade e gosto de aventura. É a rainha, e chama-se Maíra.
Passo vários dias na cidadela das Amazonas. A rainha faz perguntas e mais perguntas sobre o mundo lá fora e desconfio que seu grande interesse no mundo exterior não é bem visto pelas outras. Conto-lhe sobre minhas andanças pelo mundo árabe e pela África. Quando digo que a Inglaterra é o maior império do Mundo, ela ri.
Estou recuperado, e Maíra diz que devo voltar para onde vim. Vão me conseguir um guia indígena, que me levará até um local povoado.

* * *

Maíra levantou os olhos do caderno, entre intrigada e extasiada.
- A única exigência que fizemos foi que ele deixasse conosco seu diário. – explicou Najara. Um grupo de índios o levou em segurança até a cidade mais próxima.
- Há algo que não entendo...- disse Maíra.
- O que é?
- A rainha, chamava-se Maíra...
- Há muitas coisas que você não sabe, querida. Mas não se preocupe: tudo tem seu tempo... tudo tem seu tempo...

4/14/2006


OS ANJOS
EPISÓDIO 6 – O HOMEM QUE CONTROLAVA O TEMPO



Marcos e Antônio acordaram lado a lado e olharam-se, atônitos.
Estavam no meio de escombros de uma velha construção em ruínas. O cheiro forte de urina misturava-se ao aroma acre da madeira em decomposição. Nos canto mais escuros, ratos enormes conversavam entre si com guinchos que pareciam choro de bebês.
- O que... o que estamos fazendo aqui? – perguntou Antônio.
Marcos passou a mão na nunca, tentando afastar uma leve dor de cabeça.
- Não sei. Aliás, que lugar é esse? Não me lembro de nada...
- Vamos, vamos sair daqui...
Quando atravessaram a porta, Antônio reconheceu o local.
- Ei, parece o Palacete Paris. Cara, como está, pode não parecer, mas essa é uma das construções mais lindas da cidade... se eu tivesse bastante dinheiro, usava para restaurar este local...
- Tá, só se você ganhasse na loteria...
- Bem, não custa nada sonhar, não é mesmo?
E se afastaram pela rua, de volta para suas casas e para suas vidas. Na praça, o relógio marcava sete horas da noite. Os relógios de Marcos e Antônio também marcavam sete horas...

* * *
Marcos viu-se de repente no meio da rua. Ele imaginava onde Antônio teria comprado o relógio. Havia um sebo duas ou três quadra abaixo do banco. Depois de alguma procura, encontrou-o. Era uma casa simples, com portas de correr. O espaço era comprido, mas estreito, organizado com uma divisória. Na parte externa ficavam os livros, no fundos, objetos antigos.
Marcos foi direto para os fundos. Alegrou-se ao ver que o relógio ainda estava lá, na parte mais baixa da prateleira, escondido atrás de uma mesa de madeira.
O velho, comodamente sentado no balcão, na entrada da loja, pediu 100 reais, mas Marcos pechinchou até chegarem a 50 reais.
Saiu da loja com o objeto nos braços e procurou uma rua deserta. Assim que se viu longe dos olhos de qualquer pessoa, levantou vôo. Atravessou a cidade até a lixeira e soltou o relógio. A queda de dezenas de metros destroçou o objeto, fazendo com que suas partes, mecanismos e engrenagens se espalhassem em meio ao lixo. Então tudo virou inconsciência.

* * *

Antônio pegou na caixa de madeira do relógio com uma certa reverência, como se manipulasse um objeto sagrado. Então abriu uma portinhola lateral e dela sacou uma manivela, que girou sob sua mão, num rangido de protesto.
Fez isso e afastou-se dois passos, ficando ao lado de Marcos.
O relógio tiquetaqueava e seus ponteiros giravam sem lógica ou ordem, como se houvessem enloquecido. O ponteiro de horas ia para a direita, o de minutos para a esquerda e o de segundos, ora para a esquerda, ora para a direita.
Marcos olhou o objeto atentamente, concentrado. Uma imagem começou a se formar. O local era conhecido: uma rua de Santa Helena. A pergunta era quando.
Sem esperar uma resposta, Marcos pulou sobre a imagem e desapareceu, para espanto do amigo.

* * *
Antônio olhou, divertido, para o amigo. Seu rosto normalmente sério parecia ter passado por uma espantosa mutação que revelava um menino feliz e empolgado.
- Você sabe de minha paixão por sebos.- começou ele. Adoro livros usados. Um dia eu estava em um sebo quando vi o relógio. Por alguma razão, fiquei fascinado por ele e decidi comprá-lo. O homem da loja queria cem mangos, mas consegui convencê-lo a aceitar cinqüenta. Quando caminhava com ele de volta para casa, eu me perguntei porque estava tão nervoso. Por que minhas mãos estavam tremendo? Por que meu coração pulsava como se eu fosse ter um ataque cardíaco? Assim que cheguei, coloquei o relógio sobre a mesa e comecei a mexer nele. Descobri uma manivela. Talvez se eu a girasse, poderia fazê-lo voltar a funcionar. Então algo estranho aconteceu. Uma espécie de halo de luz se abriu em leque, acima do relógio. Por alguma razão, eu me lembrei de um fato específico. Eu era jovem e tinha ido ao médico do INSS. Cheguei lá umas cinco e meia da manhã, mas já não havia mais senhas, então eu fiquei caminhando pelas ruas desertas. Quando amanheceu, eu me sentei em um banco de praça e comecei a ler o livro que tinha levado, sentido a neblina me envolver, o orvalho das plantas se evaporando e se elevando até as minhas narinas. O livro era A máquina do tempo, de H.G. Wells. Para meu espanto, a cena se projetou na luz à minha frente. Não era como uma projeção de cinema, era como olhar por uma janela. Percebi o que era o relógio e como controlá-lo. O resto é óbvio. Eu fui ao futuro e descobri quais seriam os números sorteados na Loto. Agora estou milionário.
- Pode me mostrar como funciona? – perguntou Marcos.

* * *
Marcos olhou-o intrigado, tentando entender a situação.
- E o tempo não é absoluto?
- Não. Nem de longe. Einstein demonstrou que o tempo é relativo. O mesmo fenômeno, visto por duas pessoas diferentes, pode estar acontecendo em momentos diferentes. O tempo também é influenciado por forças como a gravidade e a velocidade. Se você estiver viajando à velocidade da luz, o tempo passará mais lentamente para você. Da mesma forma, o tempo passa mais lentamente em locais com alta gravidade. Imagine como deve ser o tempo em um buraco negro!
- E o que isso tem a ver com o relógio e a mega-sena?
- Esse relógio é uma espécie de observatório privilegiado para o qual se volta a relatividade do tempo,uma espécie de vórtice no tempo-espaço....
- Você usou-o para descobrir qual seria o resultado da loteria?
- Imagine as possibilidades fantásticas que esse aparelho representa!
- E o perigo também...
- Perigo?
- Todos os relógios parecem ter enlouquecido... talvez você tenha mexido com algo que... eu não sei... uma espécie de equilíbrio muito delicado...
- Bobagem. Qualquer que seja o equilíbrio que o universo precisa, duvido que o que fiz vá mudar alguma coisa... além disso, há uma tendência universal para a homeostase, para o equilíbrio. - argumentou Antonio.
- Nem todos os sistemas tendem para o equilíbrio. Talvez o tempo tenha uma tendência mais entrópica, caótica... – rebateu Marcos.
Calaram-se, como se tivessem chegado a um impasse.
- É apenas um observatório, ou é possível participar do que está sendo mostrado?
- É possível também participar, o que é muito perigoso, especialmente no passado. Conhece o paradoxo do pai e do filho?
- Sim, um homem volta ao passado e mata seu pai antes que ele se case com a sua mãe. Assim, ele nunca teria nascido e, portanto, jamais poderia voltar ao passado para matar seu pai... onde arranjou o relógio?

* * *
Dois meses depois, Gabriel resolveu visitar Antônio. Este recebeu-o com a alegria de uma criança que ganha um brinquedo novo e tem finalmente alguém para mostrá-lo.
Antes de entrarem, Antônio mostrou-lhe a fachada da casa, as grades, o pequeno parapeito no segundo andar, sob o qual havia insuspeitos relevos.
- A ma ioria das pessoas jamais teria a idéia de olhar para cima, mas os construtores prepararam esse pequeno presente para o sortudo que tivesse essa visão privilegiada. – explicava Antônio, com indisfarçável entusiasmo. É tudo uma obra-prima, das linhas arquitetônicas aos pequenos detalhes.
Então entraram e percorreram a sala, a copa, os quartos... Antonio mostrava tudo e gabava-se da rapidez com que havia terminado a reforma.
Ele deixou por último um quarto no segundo andar. Era fechado à chave e Antonio trazia a chave na cintura.
- O que vou mostrar a você, poucas pessoas já viram. Nem sei porque vou mostrar-lhe. Talvez porque eu saiba que você é uma das poucas pessoas capazes de compreender.
Era um quarto vazio, exceto por uma mesa e, sobre ela, um relógio antigo, de madeira.
- E então? – perguntou Marcos.
- E então? – espantou-se Antônio, como se o outro não conseguisse ver o óbvio. O relógio!
- Parece ser uma raridade, mas não compreendo porque todo esse mistério... você o comprou há pouco tempo?
- Não, há mais de dois meses...
Marcos franziu o cenho.
- Então não é uma relíquia. Há dois meses você era tão pobre quanto eu.
- Na verdade, esse relógio é a razão pela qual hoje eu tenho tanto dinheiro...
- Como assim?
Marcos aproximou-se e tocou o objeto.
- Como assim?
- O tempo é a chave. Ou pelo menos a noção que temos de tempo. Newton achava que o tempo era um valor absoluto. Ou seja, ele permaneceria o mesmo em todos os locais e situações. Ele caminharia da mesma maneira, estivesse você em Marte ou no quintal de sua casa....
* * *
Antonio não foi mais ao banco. Estava muito ocupado com a realização de seus sonhos. Fazia questão de inspecionar pessoalmente as obras de restauração do Palacete Paris. A imprensa noticiava isso como uma espécie de excentricidade, que logo deixou de provocar interesse no público. O assunto principal passou a ser outro: a desregulagem do tempo. Relógios atrasando ou adiantando-se tornaram-se cada vez mais freqüentes. Até a programação da TV e do rádio ficou prejudicada. Programas começavam sem que seus locutores tivessem chegado, anúncios locais entravam em cima da programação nacional... todos os relógios pareciam estar loucos.

* * *
No final da tarde, Marcos levou o relógio ao relojoeiro. Era um velhinho simpático e falador. Marcos espantava-se com sua coordenação motora, o modo com, apesar da idade, manipulava peças minúsculas.
- Hoje foi o dia. – disse o velhinho. Nunca trabalhei tanto na minha vida. Parece que todos os relógios da cidade resolveram adiantar, ou atrasar... até o ponto que já não sei mais qual relógio está marcando a hora certa.... bem, não parece haver nada de errado. Vou fazer apenas uma limpeza. Se ele continuar com problemas, traga que só vou cobrar se for necessário trocar uma peça...
Marcos agradeceu, pegou o relógio e foi para casa.

* * *
Marcos chegou apressado ao banco, temendo estar atrasado, mas mesmo que estivesse mesmo atrasado, pouco notariam isso. O local estava um alvoroço de balões (restos do aniversário de um funcionário), sorrisos e saudações. No centro das atenções, Antônio Simões, um funcionário tímido, de óculos de aro preto, uma calvície avançando perigosamente pela já rala cabeleira. Era estudante de artes em uma faculdade particular à noite. Uma das poucas pessoas com as quais Gabriel gostava de conversar.
- O que está acontecendo?
- O que está acontecendo? – espantou-se alguém. Onde você estava? Na Lua? Você está diante do mais novo ganhador da mega-sena...
- Acumulada! Mega-sena acumulada! – ajuntou alguém.
- E quem é o felizardo? - indagou Marcos, sorrindo.
Todos apontaram para Antônio.
Gabriel deu-lhe um abraço.
- Cara, você?!
- É, eu sabia que ia ganhar...
Pipocaram os gritos de “Modesto”, “Sortudo”.
- E agora, o que você vai fazer com o dinheiro?
- Bem, antes de mais nada, quero realizar um velho sonho. Já ouviu falar do Palacete Paris?
- Sim, claro, está abandonado...
- Mas é a construção arquitetônica mais bela de Santa Helena. Vou compra-lo e restaura-lo!

* * *
A primeira coisa que Marcos percebeu quando desceu do ônibus é que seu relógio estava atrasado. O relógio da praça marcava 8:50, e em seu relógio eram apenas 8:30. Ele parou ao lado de uma banca de jornais para acertar o relógio e aproveitou para olhar as manchetes. A Folha de Santa Helena e a Gazeta de Santa Helena traziam informações sobre política, especialmente sobre as próximas eleições, mas a Gazeta Popular trazia um fato curioso: um ganhador da mega-sena acumulada era de Santa Helena. Os outros dois jornais também traziam a informação na capa, mas com menor destaque.
“Milhões de reais”, pensou Marcos. “Viria bem a calhar, ainda mais agora, com Cristina grávida”.
Então olhou o relógio da praça e espantou-se: eram 9:10 e ele estava atrasado, mas não parecia terem se passado vinte minutos. Olhou para o seu próprio relógio e ele marcava 8:35.
“Os relógios estão doidos”, pensou, correndo para o banco.

4/02/2006


OS ANJOS
EPISÓDIO 5 – DESAPEGO

No dia seguinte, Marcos e Cristina não foram trabalhar. Dormiram até tarde e conversaram pouco. Era ainda difícil lidar com o que tinha acontecido: o seqüestro de Cristina, o homem de preto. Marcos quase o matara. Pela primeira vez em sua vida, ele quase tirara a vida de uma pessoa e esperava jamais precisar voltar a fazer isso.
Ele foi o primeiro a acordar e se sentiu feliz por ter Cristina ao seu lado. Só damos valor ao que perdemos e ele quase perdera a esposa. Como forma de demonstrar o seu carinho, ele a beijou na testa. Cristina acordou desesperada e afastou-o com um empurrão. Então percebeu que era ele e o abraçou, chorando. Seus olhos ainda estavam vermelhos quando tomaram café e ela não disse uma única palavra. Na verdade, evitava o olhar do marido.
Na hora do almoço, Marcos quebrou o silêncio.
- Sabe, ontem, enquanto procurava você, eu pensava o tempo todo em minha mãe.
- Você me falou muito pouco de sua mãe. – disse Cristina, aliviada por ele ter , finalmente, tomado a iniciativa da conversa.
- É verdade. Falo muito pouco de minha mãe. Ela morreu muito cedo... quando era pequeno, eu podia ouvir, sentir, cheirar, perceber o gosto das coisas de forma extremamente minunciosa. E eu podia voar. Levei algum tempo até descobrir que as outras pessoas não tinham as mesmas habilidades que eu tinha. Lembro das crianças caçoando de mim quando eu perguntava se elas podiam voar...
- É sério? Você achava que todo mundo podia voar?
- Achava. Eu não me sentia especial. Para mim, eu era como qualquer outro...
Cristina segurou sua mão e apertou-a, como se lhe dissesse, através de gestos, que sim, ele era especial para ela.
- Poucos meses depois que descobri esses talentos, comecei a ouvir vozes. Há algum tempo li um livro que dizia que crianças costumam conversar com pessoas desencarnadas e pensei: Era isso! Era isso que acontecia comigo. Eu falava com espíritos e eles me davam conselhos, me antecipavam o futuro... uma vez eles me disseram para não pegar um ônibus e depois descobri que esse ônibus havia sofrido um acidente...
- E a sua mãe?
Marcos abaixou os olhos.
- Um dia ela acordou, disse que o café estava pronto e saiu para trabalhar. Eu estava lavando o rosto quando ouvi o seu grito. Saí correndo. Havia várias pessoas olhando assustadas para um corpo estendido no chão. Eu abri caminho entre elas e encontrei minha mãe caída no chão, o sangue escorrendo de sua boca. Ela morreu em meus braços. Nem deu tempo de chegar ao hospital... Naquele momento, eu tive ódio das vozes que falavam comigo. Por que elas não haviam me avisado? Eu teria voado e tirado minha mãe do caminho do carro... Por que me avisaram quando eu ia pegar o ônibus que sofreria o acidente, mas não me avisaram quando minha mãe ia morrer? Por quê?
Marcos ficou em silencio, como se remoesse essa pergunta dentro de si.
- Talvez ela devesse morrer. – foi a reposta de Cristina. Talvez fosse algo que eles não pudessem lhe contar...
- Sim, talvez. – concordou Marcos, fungando. Mas na época eu só podia pensar que minha mãe estava morta e eles não haviam me avisado. Eu era um menino de 10 anos, sozinho no mundo. De certa forma, amaldiçoei meus talentos, assim como amaldiçoei as vozes. De que me adiantava poder voar, se isso não servira para que eu salvasse minha mãe? De que adiantara minha superaudição se eu não escutara o carro se aproximando dela?
Novo silêncio. Marcos tampou os olhos, tentando esconder as lágrimas.
- Depois disso, nunca mais ouvi as vozes. Também nunca mais usei meus poderes. Até um ponto em que eu me esqueci completamente deles. Isso até alguns dias atrás, quando eu acordei com uma dor de cabeça terrível...
- Você tinha me falado do orfanato, mas nunca tinha me contado sobre sua mãe.
Cristina pegou as mãos de Marcos e olhou com ternura.
- Estou muito feliz ao seu lado. Para mim, você é especial. E estou mais feliz ainda por você estar,finalmente, se abrindo comigo...
Os dois se beijaram e ele a levou para o quarto. Fizeram amor durante muito tempo,
como se não existisse o tempo e quisessem aproveitar cada segundo.

* * *
À tarde, Marcos foi à banca de revistas ver se algum jornal havia noticiado os acontecimentos do dia anterior. Descobriu que a Gazeta Popular publicara uma edição extra, vespertina, para contar os fatos da prisão do chamado “maníaco do porão”. Era uma edição magra, com apenas 12 páginas, letras garrafais e muita propaganda. Mas ainda assim estava “vendendo como banana”, como disse o jornaleiro.
O jornal informava que fora encontrado, inconsciente, na noite anterior, o homem que provavelmente era o responsável pelo desaparecimento de várias mulheres em Santa Helena nos últimos anos. Estavam em um porão. O delegado responsável pelo caso dizia que a prisão só fora possível graças a uma denúncia anônima.
“Junto com ele”, dizia a reportagem, “foram encontradas duas mulheres. Uma delas, identificadas como Wilma Aparecida dos Santos, 31 anos, havia desaparecido há um ano no estacionamento da empresa em que trabalhava. Ela estava desnutrida e com ferimentos nos pulsos e nas pernas. A outra mulher não foi identificada e, segundo os policiais, parece ter desaprendido a andar e a falar”.
A matéria continuava falando sobre as condições em que as mulheres foram encontradas e tinha declaração de um perito da polícia, segundo o qual a mulher não identificada havia sofrido sérios problemas de personalidade: “Esse psicopata conhecia fundamentos de psicologia comportamental e usou isso para condicionar essas mulheres e fazer delas o que bem entendesse”.
Sob o porão os policiais haviam encontrado vários corpos em decomposição e até esqueletos. Aparentemente, o cheiro do cortiço abafava o fedor dos corpos em decomposição, razão pela qual os vizinhos nunca desconfiaram de nada.

A matéria trazia declarações de vários vizinhos dizendo que o maníaco parece absolutamente normal. Uma vizinha lembrou que ele a ajudava a cuidar do jardim e sempre oferecia sucos e biscoitos para as crianças da rua.
Segundo o jornal, o psicopata havia sido derrotado pelo marido da vítima mais recente, mas não sabia dar informações sobre quem era esse misterioso salvador.
Por alguma razão, outra notícia chamou a atenção de Marcos:

FANTASMA ASSOMBRA LOJA DE DEPARTAMENTOS

Um boato está colocando em polvorosa os funcionários de uma loja de departamentos muito conhecida na cidade: o local estaria sendo freqüentado por um fantasma. Uma funcionária afirmou ao nosso jornal que um homem entrou no vestiário e não saiu. Quando foi procurar por ele, encontrou apenas algumas roupas velhas.
Marcos não leu o resto. Dobrou o jornal, colocou debaixo do braço e rumou para casa.
Estava decidido a abandonar a sua vida de vigilante. O que acontecera na noite anterior o deixara preocupado. Ao utilizar suas habilidades, ele teria contato com assassinos, ladrões, traficantes, corruptos... pessoas que poderiam ter o impulso de se vingar. Ele não temia por si, mas por sua esposa grávida.
Marcos havia discutido isso com Cristina e ela concordou. Temia pelo futuro e queria ter o marido ao seu lado, e não voando pela cidade à noite, quando ela ficaria sozinha.
Ele protegeria a cidade, mas quem protegeria sua esposa? As imagens de sua mãe morta, estendida no chão, ensangüentada... Marcos jamais se perdoaria se algo assim acontecesse à sua esposa.
Um Hare Krishna o parou, interrompendo seus pensamentos. Falava rápido e sua voz parecia vazia de significado. Em certo momento ele estendeu a Marcos um livro grosso. Meio a contra-gosto e mais para se livrar do assédio, ele pegou o livro. Chamava-se Bagavad-Gita. Marcos abriu uma página ao acaso e leu:
“Dedica-te à obra exclusivamente, jamais aos seus frutos. Tuas ações não devem ser motivadas pelo proveito que possam trazer; não deve tampouco te abandonares à inação. Firme na yoga, executa tuas obras sem apego nem interesse, permanecendo o mesmo qualquer que seja o resultado, feliz ou adverso”.
Marcos devolveu o livro e voltou a andar, como que hipnotizado. As palavras que lera haviam causado uma impressão profunda em sua alma. Da mesma forma que antes estava decidido a abandonar sua atividade como vigilante, agora estava decidido a continuá-la.
Mas para isso precisava de algo que encobrisse sua identidade. Chegando em casa, conversou sobre isso com Cristina e decidiram-se por um capote e um capuz levantado.
À noite, quando assistia ao telejornal, viu uma matéria especial sobre um homem que estava salvando pessoas na cidade.
A reportagem dizia inclusive, que o estouro do cativeiro do maníaco do porão se devesse a esse misterioso herói.
Nas ruas, algumas pessoas já começavam a lhe dar um nome: anjo.
O anjo. Era assim que o chamavam. Precisava estar à altura do nome.

3/26/2006



MAÍRA – A GUERREIRA AMAZONA
Episódio 2 – A primeira missão


Maíra se esquivou para trás de um arquivo de ferro e ficou lá, suportando a chuva de balas que caia sobre ela.
Em meio ao tiroteio, ela sentiu uma suave brisa e a gozou plenamente, em todo o seu frescor. O vento balançava seus cabelos, acariciava seus seios e lambia a pele de seu rosto.
Ela se lembrou dos ensinamentos de Rani, segundo a qual um velho sábio dissera ser tolo aquele que, por medo da morte, não gozava os prazeres da vida.
Seria bom que Maíra fruísse todos os prazeres que a vida pudesse lhe oferecer naquele momento... pois a morte estava próxima.

* * * *

Graças às muitas colaboradoras, prontas a ajudar a causa a qualquer custo, Maíra conseguira um emprego de secretária na GWB Empreedimentos SA. Ninguém sabia exatamente o que fazia essa empresa, mas era certo que seus negócios tinham ênfase no mercado de ações. Havia um misterioso e desconhecido sócio majoritário, que orientava pessoalmente, sempre através de e-mails, cada passo das operações, fosse o dinheiro dele ou dos clientes.
A perspicácia e o senso econômico pouco ortodoxo haviam levado a empresa a faturar bilhões no mercado mundial. No Brasil as cifras movimentadas eram sempre na casa dos sete dígitos. A GWB parecia estar séculos à frente de seus concorrentes.
Maíra evidentemente não foi admitida com seu nome de amazona. Para a empresa, ela era a senhorita Sandra Garcia. Era tratada como Miss Garcia, provavelmente em consonância com a origem geográfica do sócio majoritário, origem essa que se refletia em todos os pequenos aspectos da rotina trabalhista. O almoço, por exemplo, era composto sempre de hambúrguer saboroso como isopor, e coca-cola. Os lanches eram regados a grandes porções de café fraco e rosquinhas.
Maíra também precisou mudar o visual. Ela cortou o cabelo, deixando-o bem curto e passou a usar saia e sapato alto.
A rotina de Miss Garcia na GWB iniciava britanicamente às 8 horas. Ela ligava o computador e verificava os e-mails, a maior parte deles em linguagem codificada. Imprimia os que pareciam mais importantes e enviava, junto com a versão digital, para o presidente. Claro, o presidente não era o sócio majoritário. A maior parte dos funcionários acreditava que nem mesmo o presidente nunca o vira. O presidente era só um testa-de-ferro, que se mantinha no cargo por seguir estritamente as ordens que recebia por e-mail e assim mantinha o gordo salário mensal, o colégio das crianças e a casa na praia.
Muito mais poderosa do que ele parecia ser a chefe de gabinete.
Miss Ross era um típica caucasiana, alta, loira, de olhar frio. Maíra sabia que era ela que decodificava os e-mails e provavelmente era a única pessoa a ter encontros pessoais como sócio-proprietário, se é que alguém os tinha.
Depois de verificar os e-mails e a agenda, Miss Garcia digitava documentos e filtrava as visitas ao presidente.
Às dozes horas paravam para o almoço, ou melhor, lunch, que era composto, geralmente de hambúrguer e refrigerante.
Às duas retornava ao trabalho e era a mesma rotina até o final da tarde, quando Miss Garcia voltava para casa.
Essa rotina se repetiu durante três semanas consecutivas, sem alterações, até certo dia em que Miss Ross a chamou.
- Miss Garcia, encontramos um pequeno problema em seu currículo. Aqui diz que a senhorita trabalhou em uma sapataria de nome Real, mas mandamos um e-mail para lá e eles afirmam que nunca tiveram o prazer de te-la como sua funcionária.
Maíra ficou branca. O currículo, evidentemente, era inventado, mas havia sido checado em cada detalhe para parecer autêntico. Mas, pelo jeito, algo passara pela revisão.
- Miss Garcia, não gostamos de mentiras aqui. – rosnou Miss Ross. Sabe o que fazemos com mentirosos?
Maíra sabia, ou desconfiava. Tinha ouvido histórias sobre funcionários que eram demitidos e desapareciam...
Eles provavelmente matavam quem não era de confiança.

* * *

Maíra avançava pelos corredores do palácio quando ouviu uma voz desconhecida. Era como murmúrios, como se alguém cochichasse.
Seguindo o murmúrio, ela penetrou em uma sala que não conhecia. Lá ela encontrou sua mãe falando alguém que não aparecia. À frente dela, uma imagem diáfana, como fumaça ou névoa.
Janaina silenciou e olhou por cima do ombro. Percebendo a presença da filha, ela deu um passo para o lado, como se apresentasse alguém. Atrás dela havia uma névoa branca no formato de mulher. Era uma velha de cabelos compridos e olhos misteriosos. Com um vestido branco de nuvens, ela flutuava em um tubo transparente.
- Aproxime-me, menina. – disse o espectro, sua voz soando como se saísse do fundo de um poço.
Maíra andou até ficar frente a frente com a imagem diáfana.
- Você estava perdida e foi resgatada. É bom te-la de volta conosco.
Maíra lançou uma olhar indagador para a mãe, mas não houve nenhuma resposta. A moça nunca vira antes o espectro e não sabia o que queria dizer com ter sido resgatada.
A mulher fantasma flutuava encarando Maíra com ternura e mistério.
- Mãe, quem é... ? – gaguejou.
- É sua avó. Ela morreu muito antes de você nascer. Chama-se Selena.
Maíra olhou para o espectro, tentando se acostumar com a idéia de que estava conversando com uma morta. Depois virou-se para a mãe, mas antes que pudesse falar, esta a silenciou colocando um dedo sobre seus lábios.
- Sei que tem muitas perguntas, minha filha, e elas serão respondidas, a seu tempo. Mas agora preciso lhe falar sobre uma missão.
Uma missão! Por alguns instantes Maíra se esqueceu até da presença espectral que flutuava atrás dela, tal era o impacto que a palavra lhe causava. Fazia mais de quatro anos que Maíra pedira por uma missão individual. Naquela época ela era apenas uma menina tentando ajudar as Amazonas a libertarem algumas escravas brancas.
Depois de tanto tempo, achava que a missão não viria, pois não participara nem mesmo de missões em grupo. Passava o tempo todo estudando e treinando. Sua educação incluía línguas , geografia, história, redação e geometria fractal. Além disso, ela estudava tanto a informática rudimentar e grosseira de um Windows quanto a computação mágica das Amazonas, que como tudo ali, era impossível distinguir o que era técnica e o que era magia.
Maíra estudava também filosofia, tendo como mestra a pequena e venerável Rani. Mas as aulas de filosofia não tinham horário ou locais definidos. Aconteciam em qualquer momento, em qualquer lugar, ao sabor da curiosidade da moça. “Aprender filosofia é aprender a pensar”, ensinava Rani. “E pensar significa, na maioria das vezes, romper modelos pré-estabelecidos”. Uma aula com horário e local marcados jamais daria conta da complexidade do pensar filosófico.
- Nós temos um grande inimigo. – disse a Rainha, interrompendo o fluxo de pensamento da filha. Você não sabe muito sobre ele, e na verdade nem nós o conhecemos direito. Sabemos apenas que é guiado por uma ânsia descomunal pelo poder. O poder, minha querida, é uma droga que embriaga e vicia. Nosso inimigo age de forma sorrateira e misteriosa. No entanto, descobrimos que ele está atuando no Brasil através de uma empresa, a GWB Empreendimentos. Aparentemente ele está controlando o fluxo do mercado de ações utilizando o padrão fractal das redes de boatos. Precisamos de alguém que entre lá e descubra informações para nós sobre como estão fazendo isso. Você será esse alguém. Vamos criar um currículo falso para você arranjar-lhe um emprego de secretária...

* * *

- Miss Garcia, sabe o que fazemos com mentirosos? – rugiu Miss Ross, fazendo com que a secretária desse um pulo de espanto.
Ross falava como uma caçadora que acua a presa.
De repente, em meio ao desespero, Maíra percebeu um piscar na tela do computador.
- Miss Ross, parece que chegou e-mail. – disse ela, torcendo para que o truque funcionasse.
A mulher caucasiana, visivelmente contrariada, olhou para a tela.
- Sim, parece que chegou e-mail.
Nada, além do condicionamento de responder e-mails no exato momento em que chegam explica o fato dela deixar o que seria um longo interrogatório para se ocupar do computador.
Enquanto lia a mensagem, mudava sua expressão, de contrariada para intrigada e finalmente para calma.
- Senhorita Garcia, parece que houve um lamentável equívoco. A sapataria Real recentemente mudou de proprietário e sua ficha aparentemente se perdeu no processo, mas estão nos mandando um e-mail confirmando sua passagem por lá. Peço desculpas.
Se a mulher caucasiana tivesse advinhado quem era Miss Ross, teria levando em frente sua investigação, mas ficou nisso.
Maíra gravava em disquetes, ou, quando sentia que isso era perigoso, imprimia uma cópia para si dos e-mails codificados.
À noite, em seu apartamento, ela tentava decodificar as mensagens. O método para isso é antigo e remonta à Idade Média. Enquanto os europeus ainda achavam seguro o processo simples de trocar uma letra por sinal qualquer, os árabes já sabiam como decodificar códigos muitos mais complexos, baseando na probabilidade de ocorrência das letras. Esse método foi brilhantemente ilustrado por Edgar Alan Poe no conto O Escaravelho de Ouro e consiste em fazer uma tabela das letras mais raras, e portanto mais informativas, e as menos raras, e portanto mais redundantes, em uma língua. A seguir o padrão da língua é comparado com os padrões de repetições de sinais nos textos codificados.
Na língua portuguesa, por exemplo, as letras mais comuns são o A e o E. as mais raras são o X, o Y e o Z. Em um texto com grande quantidade de palavras, o sinal que for mais redundante, será, provavelmente, um A ou E.
Os e-mails usava como sinais as próprias letras do alfabeto. Maíra tentou simplesmente dobrar o alfabeto sobre si mesmo, de modo que o Z representasse o A, o X o B e assim por diante. Evidentemente isso não deu resultado. Não era provável que o sócio-majoritário da GWB usasse um código tão simples.
Uma outra tática interessante de decodificação, usada pelos ingleses para descobrir a chave da terrível máquina nazista Enigma, consistia em tentar colas, palavras que provavelmente constavam no texto. Descoberta uma palavra, o resto ficava fácil.
Sendo instruções para o mercado de ações, as mensagens provavelmente deveriam ter palavras como COMPRE, VENDA, AÇÕES. Maíra passou três dias tentando colas e quando conseguiu descobrir uma palavra, deu pulos de alegria. As palavras lhe revelaram nada menos que 11 signos. Daí em diante foi fácil.
Maíra descobriu que cada letras podia ser substituída aleatoriamente por três outras letras. Para tornar mais difícil a decodificação, havia signos que não representavam nada.
Ela escreveu a chave e gravou em um disquete junto com os e-mails de todos os concorrentes da GWB.
No dia seguinte, esperou todos os funcionários saírem e começou a redirecionar os e-mails, daquele dia, junto com as chaves, para as empresas concorrentes.
Ela sabia que o império do inimigo misterioso desmoronaria rapidamente com as informações que estava repassando.
Foi quando começou a ouvir tiros.

* * *

Maíra respirou fundo, tentando identificar, em meio à fumaceira de pólvora, seu próprio perfume adocicado.
De tempos em tempos, levantava e disparava uma rajada com um dos aparelhos que recebera das amazonas, uma pistola disfarçada em estojo de pó compato. Mas sabia que isso apenas atrasaria seus inimigos. Em pouco tempo eles cairiam sobre ela e uma bala acertaria seu crânio.
Então algo aconteceu. Por um momento a chuva de balas cessou, para continuar novamente em outra direção. Maíra esticou a cabeça por cima do arquivo e teve uma surpresa. A cavalaria tinha chegado! Najara avançava com a clava na mão, distribuindo bordoadas como um furacão.
Atrás dela, Rani, em um módulo anti-gravitacional, armava e desarmava seu arco tão rápido que era impossível acompanhar com os olhos.
Mais atrás, também em um módulo anti-gravitacional, Janaina emitia rajadas com seu cetro de rainha.
Os inimigos caiam como plantas no dia da colheita.
Em pouco tempo, Janaina pegava Maíra em seus braços, e desaparecia com ela no módulo anti-gravitacional.
Antes de partir, ela beijou sua filha:
- Bom trabalho, minha querida, bom trabalho.

* * *
Miss Ross avançou, titubeante, pelo largo salão. No final dele, havia uma mesa e uma poltrona de espaldar alto, virada para a janela.
Quinze metro depois, Miss Ross parou, ao pé da mesa.
- Então ela nos venceu, não é mesmo? Uma menina nos venceu... – disse a voz atrás da poltrona.
- O segredo do mercado de ações é justamente o segredo, senhor. Quando souberam como agíamos e quando souberam como estávamos implantando boatos, ficou impossível continuar. Tivemos de pedir falência.
- Isso significa prejuízo, não é mesmo?
- Sim, senhor.
- Tudo por causa daquela potranca?
- Isso mesmo, senhor.
- Sabe o que fazemos com pontrancas que não se deixam domar?
- O que, senhor?
A poltrona se virou, revelando um homem baixo, de orelhas grande, rosto de chimpanzé e chapéu de cowboy.
- Nós sacrificamos, Miss Ross. É isso que fazemos com potrancas que nos dão trabalho.
A mulher sentiu um esgar de morte. Sua garganta se fechou e tremores percorreram seu corpo. Suas pernas bambearam e ela caiu, estrebuchando.
O homenzinho ficou em pé, para olhar por cima da mesa, enquanto dizia, divertido:
- A vida é um rancho, Miss Ross. É o que dizemos lá no Texas!

3/19/2006



OS ANJOS
EPISÓDIO 4 – SETE HORAS

Eram sete horas da manhã.
Ele acordou com a mãe sacudindo-o e dizendo que ele se atrasaria para a escola.
Eram sete horas da manhã.

* * *

O homem tirou a venda e as trevas que enchiam seus olhos se transformaram em luz, mas isso não alegrou Cristina. Ela tentou falar, gritar por socorro, mas uma fita adesiva em sua boca só lhe permitia alguns gemidos.
Cristina estava sentada em uma cadeira de madeira, as mãos amarradas ao encosto.
Acostumando seus olhos à claridade, ela olhou à volta, tentando se situar. Percebeu que estavam em uma espécie de porão. Não havia janelas, apenas uma porta, logo à sua frente. O chão era de madeira envernizada, velha, mas em bom estado.
Um cheiro forte e decrépito tomava o ambiente.
Uma lâmpada incandescente, acima de sua cabeça, era a única iluminação.
Olhando para um dos lados do porão, ela viu seu raptor e teve um calafrio. Era um homem calvo, vestido de preto, com óculos escuros. Não tinha sombrancelhas e seus lábios eram muito finos e brancos, como se não corresse sangue em seu corpo. “Talvez ele esteja morto”, pensou. Mas ele estava vivo e sorria para ela um sorriso estranho, demoníaco.
Do outro lado, havia uma cama. No lugar do colchão, um estrado de faixas de borracha entrelhaçadas. Amarrada sobre a cama estava uma mulher loira, de cabelos anelados desalinhados e longos. Estava nua e sua pele estava branca como se há muito tempo não visse o sol.
Ao pé da cama, presa a uma coleira e uma corrente fixada na parede, estava outra mulher, de quatro. Tinha traços orientais e cabelos pretos muito curtos, mas cortados por um cabeleireiro inábil. Também estava nua e sua pele era ainda mais branca que a da outra.
- Seja bem vinda à sua nova casa. – disse o homem de preto, e seu sorriso se tornou ainda mais doentio.
* * *
Eram sete horas da manhã.
Ele colocou as calças com os olhos fechados e quase dormiu de novo enquanto calçava as meias.
Eram sete horas da manhã.
* * *
Marcos ficou alguns segundos estático, parado com o papel na mão: VOCÊ NÃO SABE ONDE ESTÁ A SUA MULHER.
Suas mãos crisparam contra o papel, amassando-o e transformando-o em uma bolinha. Então jogou-o no chão e se afastou dele como se estivesse contaminado. Foi andando de costas, na direção da porta, as lágrimas escorrendo de seu rosto.
Quando chegou ao quintal, alçou vôo, gritando como um louco. Ficou lá em cima, rodopiando entre as nuvens e gritando.
Depois começou a voar em desespero por todos os locais, rastreando os sons na tentativa de encontrar sua esposa, até perceber que isso era inútil.
* * *
Eram sete horas da manhã.
Ele usou o tato para amarrar o cadarço dos sapatos enquanto a mãe se despedia dele e saía pela porta.
Eram sete horas da manhã.
* * *
O homem parou de sorrir e olhou para as duas mulheres nuas.
- Deixe-me apresentá-la a suas novas colegas. Vocês passarão muito tempo juntas. São as minhas cachorrinhas, e você logo será também.
Ele se aproximou das mulheres e, abaixando o tronco, acariciou a cabeça da mulher no chão. Ela fez-lhe festas e lambeu sua mão.
- Esta é Sereia. As pessoas do interior gostam de batizar seus cachorros com nomes marinhos como forma de prevenir contra a hidrofobia. Eu gosto disso, acho poético, não é mesmo, Sereia?
A mulher respondeu com um som que parecia um latido.
- Eu capturei Sereia há cinco anos e levei mais de dois anos para domesticá-la. É um trabalho lento, de condicionamento. Demorado, mas compensa. É preciso muito cuidado, inclusive com a saúde. Devo compensar a falta de sol com vitaminas, mas isso não impede a brancura da pele. Seria, de fato, um inconveniente, se eu não gostasse assim.
Ele ficou novamente ereto, sentou no estrado da cama e tocou na mulher que estava amarrada. Ela afastou a perna com repugnância, como se tivesse sido tocada por uma cobra.
- E esta é Pérola. Eu há capturei há um ano e ela está em treinamento. Ela fica amarrada o tempo todo, mas eu a solto uma vez ao dia para que ela se acostume a andar de quatro e, ao mesmo tempo, se exercite. Pérola é um pouco arredia e seu treinamento vai durar muito. Talvez eu me canse dela antes disso e faça com ela o que fiz com as outras. Você pode sentir o cheiro? Pode ouvir os ossos estalando? Elas estão aí, embaixo de você. Aquelas que me desobedeceram...
E o homem de preto olhou para o chão debaixo da cadeira.
* * *
Eram sete horas da manhã.
Ele lavava o rosto quando ouviu um guincho fino, como de borracha sendo arrastada por uma superfície sólida e áspera. Depois o grito de uma mulher e o som seco de ossos se quebrando. A voz de sua mãe.
Eram sete horas da manhã.
* * *
Marcos aterrissou no quintal de sua casa e entrou pela porta da frente, que havia ficado aberta. Penetrou na sala e deparou-se com uma foto de Cristina acima da televisão. Aproximou-se e tocou-a com o dedo, cuidadosamente, como se lidasse com algo extremamente frágil, capaz de quebrar ao menor toque.
Depois, foi para a cozinha e pegou o papel amassado no chão. Abriu-o lentamente, tateando-o, tentando encontrar alguma pista tátil. Todos os seus sentidos concentravam-se no papel, à procura de algo e foi o seu nariz que encontrou algo estranho. O cheiro. Que cheiro era esse?
Marco levou o papel ao nariz, aspirou profundamente e em seguida afastou o papel, enojado. Fedor.
Que tipo de fedor? Lixo? Fezes?
Cortume.
Era isso. Cortume. Onde já Marcos já sentira esse cheiro antes? Procurou na memória.
Sua mãe. Ônibus. Fedor. Cortume.
Um dia, ele tinha oito anos, estavam no ônibus. Ele sentiu o fedor e tapou o nariz. Sua mãe lhe explicou que era o cheiro do cortume e que aquela era a rua do Cortume.
Rua do Cortume.
Marcos procurou um mapa. Rua do Cortume. Lá estava ela. No bairro do Cortume.

* * *
Eram sete horas da manhã.
Ele saiu de casa correndo e atravessou a rua, o rosto molhado de água e lágrimas.
Eram sete horas da manhã.

* * *
O homem de preto se deitou sobre a mulher loira e violentou-a. Ela tentava gritar, mas era impedida por uma mordaça de couro que cobria sua boca e seu queixo.
Quando terminou, ele se levantou e deixou a mulher chorando sobre a cama. Então andou até a prateleira do outro lado do porão e pegou uma faca.
- Você deve estar se perguntando por que ainda não fiz nada com você. – disse ele, aproximando-se de Cristina. Sabe por quê? Porque quero primeiro capturar seu marido. Quero que ele veja tudo que vou fazer com você.
Os olhos de Cristina se arregalaram. Ele aproximou o faca de sua blusa e usou-a para arrancar, uma a um, os botões de sua blusa. Depois cortou os sutiã e os seios saltaram. Então Cristina sentiu o gume frio da faca passeando por seus seios e roçando em seus mamilos.
-Ele é uma pessoa especial e por isso terei um prazer especial em captura-lo. Oh, sim! Eu me esqueci! Você ainda não sabe sobre os dons de seu marido... você ainda não sabe que ele pode ouvir mais e melhor que qualquer pessoa, que pode ver como uma águia, pode sentir texturas e sabores melhor que você poderia imaginar. E ele descobriu recentemente que pode voar. Como sei disso? Vamos dizer que também tenho minhas habilidades. Ao focar uma pessoa, eu posso sentir um pouco de seu passado, presente e futuro. Eu estava na fila do banco quando houve o assalto e sei que foi seu marido que impediu o assalto. Entenda, eu só precisei juntar as peças...seu marido é um escolhido, um homem com habilidades especiais... como eu... e, o que é melhor, tem uma linda esposa...
O homem de preto levantou a faca e passou-a pela face de Cristina.
- Você deve estar pensando: se meu marido tem mesmo essas habilidades, ele irá me salvar. Vai descobrir onde estou e vai me salvar como o príncipe encantado que salva a princesa prisioneira do dragão. Mas eu tenho más notícias. Isto não é um conto de fadas... e o dragão é mais esperto que o príncipe. Eu posso sentir ele chegar. E posso me antecipar a cada ação dele. Aliás, posso senti-lo agora. Ele está chegando. Está caindo em minha armadilha!
* * *
Eram sete horas da manhã.
Várias pessoas se amontoavam ao redor do corpo. Uma mancha rubra se alastrava pelo asfalto. Ela ainda respirava.
Eram sete horas da manhã.
* * *
Marcos percorreu voando o caminho entre sua casa e a Rua do Cortume e ficou lá em cima, rastreando as casas até ouvir a voz de sua esposa gritando por socorro.
Era uma casa velha, isolada entre o cortume e um terreno baldio.
Marcos passou por uma varanda e aproximou-se da porta, pronto para arrombá-la, quando percebeu que ela estava aberta.
A porta abriu com um rangido e Marcos ouviu um murmúrio em sua cabeça: “Cuidado”.
Deu um primeiro passo e a madeira velha gemeu sob os seus pés. A voz de sua esposa, chamando por socorro continuava forte à sua frente. Um novo passo e a madeira tornou a gemer. Estava em uma sala ampla. A voz de sua esposa vinha de uma mesa, mas não havia ninguém lá.
Olhando à sua volta, ele se aproximou da mesa. Era um gravador.
Marcos apertou o stop e os pedidos de socorro cessaram. Então girou ao redor de si mesmo, os ouvidos atentos para qualquer barulho.
Um homem falando.
Onde?
Abaixo de seus pés.
A casa devia ter um porão. Marcos andou por ela, procurando a entrada. Encontrou-a na cozinha: um estreito corredor com uma escada e, no final dela, uma porta. “Não vá, não vá”, dizia a voz em seu ouvido, mas ele desceu. A madeira rangia e estalava sob seus pés. Seus ouvidos estavam atentos. O homem tinha parado de falar. Onde estaria?
Marcou abriu a porta e entrou. Viu sua esposa amarrada e amordaçada em uma cadeira e foi a última coisa que viu. Sentiu o impacto de algo duro na testa... depois dor... e então ficou tudo escuro.
* * *
Eram sete horas da manhã.
Ele tinha certeza de que ela iria sobreviver e afagava seus cabelos manchados de escarlate, mas ela deu seu último suspiro.
Eram sete horas da manhã.
* * *
Marcos acordou desnorteado. Onde estava? Por que tudo estava tão escuro? Aos poucos, a memória foi voltando e ele percebeu que estava caído no chão. A visão demorou mais a voltar e a primeira coisa que ele viu foi o rosto de um homem calvo de óculos escuros e sorriso sarcástico.
- Não pensei que fosse tão fácil. Achava que ia me divertir um pouquinho... vamos, levante-se, seu idiota, levante-se!
Marcos se jogou sobre ele, mas o homem de preto desviou.
Com muito esforço, Marcos se levantou. Seu olhar estava embaçado, mas mesmo assim ele voou sobre o homem, que desviou no momento exato e, pegando-o pelo pé, jogou-o contra a parede.
- Vamos, me ataque! Salve sua linda esposa! Venha, seu idiota!
Marcos se levantou novamente e ficou frente a frente com seu antagonista. Tentou pegá-lo de surpresa com um soco, mas o homem desviou com facilidade, até que seu rosto foi tomado por uma expressão de dor. Ele podia antecipar cada movimento de Marcos, mas não podia prever o chute que Cristina lhe daria entre as pernas.
Marcos aproveitou o momentâneo desnorteamento do homem de preto e desferiu-lhe um golpe na cabeça. Com o impacto, ele caiu de costas no chão e Marcos caiu sobre ele, desferindo socos. Os óculos escuros quebraram e revelaram olhos azuis muito claros.
Marcos pegou-o pelas orelhas e bateu sua nuca no chão até que ele parasse de se mexer. Então se levantou e começou a chutar o homem entre as pernas e nas costelas.
Quando se cansou, foi até a esposa, ajoelhou-se, tirou a mordaça de sua boca, e abraçou-a, chorando. Choraram os dois juntos, beijando-se entre lágrimas.
Então ele se levantou e desamarrou-a. Em seguida foi até a mulher nua na cama e também a libertou. Ela olhou para as próprias mãos, não acreditando que estava livre.
A mulher no chão foi libertada da coleira, mas não se levantou. Ao contrário. Foi de quatro até o homem e preto e cheirou-o.
- Ele está...? – perguntou Cristina.
- Não. Apesar de merecer morrer, ele vai sobreviver. Agora vamos embora.
Cristina apontou para as mulheres.
- E elas?
- Vamos chamar as autoridades. Elas precisam de mais ajuda do que podemos dar.
Foram andando até a varanda. Depois Marcos levou-a voando para casa.

3/13/2006


OS ANJOS
EPISÓDIO 3 - PESADELO


Marcos dormia. Em seu sonho, ele era criança e tinha amigos invisíveis. Eles falavam com ele, aconselhando-o. Falavam de seus sentidos e de como ele não eram bem usados. Poderiam ser muito melhores, se ele aprendesse. Poderia ouvir melhor, ver melhor, sentir sabores que jamais havia imaginado e sentir cheiros tão frágeis que um cachorro se enganaria com eles.
Eles lhe disseram que poderia voar também... e ele voou. Seu corpo elevou-se acima do solo, voando acima das casas.
Em seu sonho, ele se lembrou de sua mãe lhe contando uma história. Uma parábola da Bíblia.
“Um senhor muito rico ia viajar”, dizia ela. “Ele chamou três de seus servos. Para o primeiro, entregou cinco talentos. Para o segundo, dois e para o último, um.
Depois de muito tempo, ele retornou e mandou chamar os servos. O primeiro chegou e disse: Senhor, investi os cinco talentos que me confiaste e com eles lucrei mais cinco. E entregou o dinheiro, mas o senhor devolveu a ele dizendo: Foste um bom servo e tens direito a teus talentos.
Então o senhor chamou o outro servo. Senhor, disse o servo, investi os dois talentos que me entregaste e ganhei mais dois. Mais uma vez, o senhor entregou todo o dinheiro ao servo, elogiando-o.
Finalmente, entrou o último servo, trazendo na mão apenas um talento. Senhor, disse o servo, fiquei com medo de ti e enterrei o talento que me deste. Aqui está.
O senhor o amaldiçoou: Eu te dei o talento para que o multiplicasse, não para que o enterrasse. Servo mal. Ficarás preso onde haja choro e ranger de dentes.”
Marcos se lembrava de sua mãe lhe contando essa história. ela estava sentada à beira da cama, falando com sua voz calma e tranqüilizadora... e no instante seguinte estava morta!
***
- Querido, o que foi?
Marcos olhou à volta, tentando descobrir onde estava. Por um instante pareceu-lhe que estava em seu quarto de infância e só percebeu o engano quando viu Cristina ao seu lado. Apesar do ar-condicionado, ele suava e sua testa estava molhada.
- O que aconteceu? Você deu um grito...
- Nada. Um pesadelo, só isso.
De manhã, enquanto tomavam café, Cristina perguntou se estava tudo bem.
- Tudo ótimo. Foi só um pesadelo...
- Bem, talvez eu tenha uma razão para deixa-lo feliz. Você chegou tão tarde ontem e depois pareceu tão interessado nas notícias sobre o fim do seqüestro do garoto, que acabei não contando...
- Contando o quê?
- Uma novidade.
- Eu sei que é uma novidade. Apenas me conte o que é.
- Eu... bem... eu estou grávida!
- Grávida?
- As minhas regras estavam atrasadas uma semana e você sabe o quanto o meu ciclo é regular. Então eu fiz um exame e deu positivo...
Marcos ficou olhando para ela, perplexo.
- Grávida...
Por alguma razão, o bilhete que recebera no dia anterior veio à sua mente: EU SEI TUDO.
- E então, não está feliz?
- Claro, estou muito feliz!
Levantou e foi beija-la. Depois ajoelhou-se e beijou a barriga da esposa.
Quando saía de casa, lembrou-se que não havia olhado a caixa de correspondência no dia anterior. Abriu a caixa e lá dentro havia contas para pagar, catálogos e uma estranha carta, sem remetente e sem carimbo do correio. Marcos estava já no ônibus quando abriu a carta e suas mãos ficaram trêmulas. No papel havia apenas uma frase: EU SEI ONDE VOCÊ MORA.
***
Maria Rita estava molhando uma toalha para colocar ao redor do pescoço quando começou a ouvir passos. Sua visão estava turva em decorrência da fumaça. Ela estava sufocada, tossindo e mal podia manter-se de pé, mas mesmo assim conseguiu distinguir um homem se aproximando dela.
- Estou aqui para salva-la. – disse o desconhecido e sua voz tinha o timbre da esperança.
- Não há como. Estamos mortos. – a voz estava embaçada pela fumaça e o esforço de falar parecia inútil. Os andares de baixo estão pegando fogo. Não há como subir. O fogo tomou as escadas. Só nos resta pular da janela, mas são dez andares...
O homem pegou em seu ombro e tranqüilizou-a:
- Não se preocupe. Você vai ser salva.
Ele pegou-a pela mão e saiu com ela do banheiro. A fumaça subia, tomando conta de tudo e tornando impossível avançar sem tropeçar ou bater nos móveis. As instalações elétricas começavam a pipocar em estalos prateados. A encanação de gás explodiu e a cozinha foi tomada pelo fogo.
Maria Rita recuou, aterrorizada.
-Vamos, se ficarmos mais tempo, estaremos mortos.
A mulher deixou-se arrastar até a sacada. Ar, ar puro. Ela respirou profundamente, aproveitando seus últimos momentos de vida.
- Segure-se em mim. – pediu o homem. Vamos sair daqui.
- Não, eu não vou pular. Prefiro morrer queimada.
Histérica, Maria Rita fechou os olhos, sentou no chão da sacada e começou a chutar a perna do desconhecido.
- Vá embora! Vai embora! Eu não vou pular!
De repente seus pés não alcançaram mais nada. Ela abriu os olhos, lutando contra as lágrimas e a ardência, procurando o homem, mas só o encontrou quando olhou para cima. Ele estava flutuando no ar, como se suspenso por linhas invisíveis e mágicas.
- Você não vai cair.- disse ele.
Ela se levantou chorando – e as lágrimas já não eram mais apenas por causa da fumaça – e se agarrou a ele. Os dois flutuaram em minutos seus pés tocavam o chão da rua. Muitas pessoas a cercaram, tentando ajuda-la. Depois de algum tempo ela olhou à volta, mas seu salvador havia desaparecido em meio à multidão.

***
Marcos chegou em casa exultante naquela noite. Ele pensava seriamente em falar para a esposa como havia salvo a vida de uma mulher em um incêndio, mas não havia ninguém em casa.
A bolsa de Cristina estava sobre o sofá, mas a casa estava silenciosa. Preocupado, ele andou até a cozinha. Havia um papel branco dobrado sobre a mesa. Marcos abriu o papel. Havia apenas uma frase nele:

VOCÊ NÃO SABE ONDE ELA ESTÁ.

3/05/2006

OS ANJOS
EPISÓDIO 2 – UM SONHO DE VOAR

Ele sonhou que estava voando. Seu corpo deslizava suavemente pelas partículas de ar, quebrando barreira, ignorando a gravidade. Atravessava nuvens e comungava com as estrelas, respirando liberdade...
Marcos acordou. Não abriu os olhos, mas advinhou que ainda era noite. Sentia frio, mas, curiosamente, o frio vinha de baixo, não de cima. Era como se a cama tivesse desaparecido. Lutou entre dois opostos: a vontade de continuar dormindo e a necessidade de abrir os olhos para puxar a coberta. Finalmente, abriu os olhos e espantou-se com a proximidade do teto. Era como se a parede tivesse encurtado. Teve, então, a idéia de olhar para baixo e descobriu o que realmente estava acontecendo: ele estava flutuando quase meio metro acima do colchão. O lençol se elevara com ele, mas continuava cobrindo Cristina.
Marcos entrou em desespero, mas ouviu uma voz sussurrando em seu ouvido, acalmando-o.
Ele desejou estar de volta à cama e, como se respondesse a um comando secreto, seu corpo foi descendo até ser depositado calmamente no chão.
***
No banco, no dia seguinte, Marcos deparou-se com os colegas lendo as manchetes do Gazeta Popular. Pediu para dar uma e leu, enquanto um colega dizia “Só faltava essa!”.
LADRÕES DORMEM DURANTE ASSALTO
Dois menores, que assaltavam e tentavam violentar uma mulher na quinta-feira à noite, no bairro de São Francisco, dormiram enquanto praticavam o crime. A vítima também dormiu. Os dorminhocos foram encontrados ontem de manhã pela polícia, depois de denúncias de vizinhos. Entrevistados, os acusados disseram que não sabiam o que havia acontecido. É, pelo jeito o assalto estava tão monótono que deu sono...
- Era só o que faltava, hein? Ladrão dormindo no serviço. – disse um colega.
- Olha só quem fala! Até parece que você não dorme no banheiro. – lembrou outro.
- Aquilo não é sono, é meditação.
Nisso o vigilante se aproximou.
- Seu Marcos, deixaram um bilhete para o senhor.
E entregou um pedaço de papel dobrado e grampeado, com seu nome em um dos lados.
- Como assim? Quem deixou?
- Não sei. Devem ter jogado por debaixo da porta... tem seu nome aí.
Marcos abriu o grampo. Havia apenas uma frase, em letras maiúsculas:
EU SEI TUDO.
Marcos dobrou o papel e colocou-o no bolso, olhando à volta para se certificar de que ninguém mais havia lido seu conteúdo.
- O que foi? – perguntou um amigo.
- Nada, trote.
- Sei, viu a história do garoto que foi seqüestrado?
- Garoto seqüestrado?
- Onde você estava, na lua?
- Que garoto?
- Seqüestraram o filho de um comerciante. O garoto tem cinco anos. Estão pedindo três milhões. O pai diz que não tem esse dinheiro. Eles cortaram um dedo do garoto e mandaram para o pai...
- E a polícia?
- Nenhuma pista. Agora vamos para o trabalho que o gerente está chamando...
***
À tarde, quando saiu do trabalho, Marcos pegou um ônibus que não pegava normalmente. Ele sabia que, com isso, ia dar uma volta muito maior. Mas não se importava. Era como se vozes o influenciassem em sua decisão.
Quando chegou a um terminal, pegou outro ônibus e foi à janela, atento aos sons que chegavam da rua. Era uma miríade de sons variados que se misturavam num todo caótico, que Marcos separava em pequenas partes e as analisava uma a uma. Ele ouviu cachorros latindo, ouviu o choro de bebês, ouviu um casal brigando por causa de um controle remoto, ouviu um fusca velho tossindo e escarrando, incapaz de sair do lugar.
De vez em quando ele ouvia uma música agradável e concentrava a atenção nela, mas depois voltava a rastrear os sons, como se procurasse a sintonia no dial de um rádio.
Já estava muito longe de casa e do banco quando ouviu algo que chamou sua atenção. Desceu na parada seguinte. Ia concentrado, com medo de perder a voz na qual estava concentrado.
Finalmente parou na frente de uma casa que parecia abandonada. Mas não estava, como atestava o cadeado novo na grade do portão. Era uma casa ampla, de classe média, com telhado de telhas de barro.
Marcos olhou para o lado, para se certificar de que não havia ninguém na rua, e então se elevou no ar. Pousou sobre o telhado, com cuidado para não fazer barulho. Levantou uma das telhas e olhou para baixo. Era um quarto pequeno, com a porta trancada. Tinha um garoto ali, sentado em um cama com os braços enlaçados nas pernas dobradas. O garoto chorava e tremia.
Marcos recolocou a telha no lugar e se elevou no céu, descendo novamente em outra rua, ao lado de um orelhão. Fez uma ligação, utilizando o último crédito de seu cartão, e voltou a a se elevar no céu. Quando pousou novamente, estava sobre o telhado da casa. Procurou a telha que havia retirado antes e afastou-a. depois outra e outra, até abrir um espaço suficiente para poder entrar.
O garoto ouviu o barulho e olhou para cima. Marcou levou o dedo médio aos lábios, em sinal de silencio, e piscou para ele.
- Vou tira-lo daqui. – disse, pousando ao lado da cama.
Os olhos do garoto brilharam.
- Meu pai mandou você?
- Eu sei quem foi. Minha avó. Ele apareceu num sonho e disse que um anjo ia me salvar.
- Silêncio agora.
Marcos pegou o garoto no colo e começou a flutuar no ar, na direção do buraco no teto. Nisso ouviu o barulho de um trinco e o rangido da porta.
- Ei, o que está acontecendo?
O homem sacou uma arma e começou a atirar, mas Marcos e o menino já tinham desaparecido. Ouvia-se sirenes.
***
À noite, Marcos assistia o noticiário com a esposa. A principal notícia era a libertação do garoto.
REPÓRTER: O garoto foi liberado depois de 40 dias de cativeiro. O seqüestro teve momentos dramáticos, como quando os pais receberam uma caixa com o dedo do menino, mas acabou bem. O cativeiro foi descoberto graças a uma denúncia anônima, mas quando a polícia chegou ao local, Rodrigo já havia fugido e estava a duas quadras de distância. Estamos aqui com o delegado responsável pelo caso. Delegado, como o menino conseguiu fugir?
DELEGADO: Realmente não sabemos. Aparentemente ele fugiu pelo telhado, mas a parede era muito alta e não havia nada para ele subir. É um mistério...
REPÓRTER: O que o garoto diz?
DELEGADO: Ele afirma que foi salvo por um anjo enviado pela avó. Essas fantasias infantis são comuns em casos de stress como esse. A pessoa cria uma fantasia para fugir da realidade.
REPÓRTER: Rodrigo passou por uma avaliação psicológica?
DELEGADO: Sim, e ele estava calmo, apesar do que aconteceu. Achamos que a fantasia do anjo e a lembrança da avó morta o ajudaram a lidar com a situação.
REPÓRTER: Obrigado, delegado. Voltamos agora aos nossos estúdios.
ÂNCORA: É, parece que temos um anjo cuidando da cidade....

2/27/2006


ILustração Jean Okada
MAÍRA – A GUERREIRA AMAZONA
Episódio 1 - Origens

O pequeno avião monomotor sobrevoava a floresta, espalhando um barulho rouco pela imensidão verde. Lá do alto uma menina esticava a cabeça para olhar pela janela. Seus pequenos olhos de mel saltavam de um lado para o outro, maravilhados com os rios, que serpenteavam a floresta em mil bifurcações. Tinha os cabelos lisos curtos da mesma cor dos olhos.
- Mamãe! Mamãe! Olhe que lindo. – exclamou ela.
Mas a mãe não respondeu. Seus olhos estavam cheios de lágrimas. Ela abraçou a menina e murmurou:
- Eu te amo. Aconteça o que acontecer, lembre-se que mamãe ama você.
Só então a menina percebeu que algo estranho estava acontecendo com o avião. A aeromoça, sentada de frente para eles, estava estática, como se seus olhos tivessem contemplado a morte. Os ouvidos da menina se tamparam. O avião estava em queda livre.
O impacto aconteceu entre as árvores. Houve um estrondo e o momento parou. O impacto deslocou as poltronas e os tripulantes se espalharam pela cabine.Galhos quebraram as janelas como visitantes inoportunos.
Quando o barulho terminou, a menina levantou os olhos e percebeu que era a única sobrevivente. Ainda tentou acordar a mãe, mas, por mais que a balançasse, ela permanecia inerte, com seus olhos de vidro.
A pequena saiu da cabine e começou a andar pela floresta sem saber o que fazer. A escuridão cai sobre a mata com rapidez incrível. Quando deu por si, já era noite e ela não sabia para onde ir. Todos os caminhos pareciam o mesmo.
A garota ficou muito tempo assim, perdida na escuridão, até visualizar uma luz. Inicialmente achou que fosse uma casa, mas era uma luz estranha, etérea.
De repente viu-se frente a frente com uma espécie de cidade de luminosa. Havia uma enorme muralha contornando-a e um portão dourado mais alto que cinco homens um sobre o outro. O portão estava aberto, como que convidando a menina a entrar. Enquanto passava por ele, a garota viu, gravadas nele, cenas de mulheres guerreiras, parecidas com índios, enfrentando homens de armadura, como aqueles que ela via nos livros de história.
Lá dentro havia uma praça, que a menina atravessou como que guiada por uma força invisível. No final dela, um palácio imponente todo de ouro. A menina entrou pelos portões do palácio e se deparou com uma mulher sentada em um trono. Força e autoridade pareciam emanar dela. Tinha cabelos lisos e pretos, assim como os olhos, que eram da cor da noite. Não era mais alta que uma mulher normal, mas sua imponência dava a impressão de que se tratava de uma giganta. Como roupa, usava uma espécie de armadura de ouro enfeitada com penas coloridas. A mulher olhou para a menina e sua voz soou como instrumentos musicais:
- Bem vinda, Maíra, aqui você encontrará um novo lar e uma nova mãe.

* * *
A pequena menina tropeçou e foi empurrada para a frente.
- Vamos, entre! – Gritou o feitor, em sua voz de trovão.
A menina se ajoelhou, implorando.
- Por favor, senhor... me deixe voltar para casa...
O rosto do homem era insensível como gesso. Todo ele era enorme e seu pescoço parecia ser maior que a cintura da menina. Ele sorriu levemente, imaginado que poderia quebrar sua coluna usando apenas os dedos.
- Entre! – disse ele sem gritar, mas firme.
A moça tremeu... de medo.
- Por favor...
- Entre!
A pobre percebeu que era impossível resistir ou argumentar. Estava no meio da floresta, longe de qualquer lugar conhecido, cercada de homens que poderiam fazer qualquer coisa com ela. Sua única chance de sobrevivência era obedecer. Assim, ela entrou e a porta foi trancada atrás de si.
Os homens, que descansavam ali perto, começaram a rir.
- Há! Há! André, você sabe mesmo como lidar com uma mulher!
O feitor olhou para eles com a mesma expressão que usara com a pequena.
- Os homens precisam de diversão, ou não trabalham direito...
Antes a região era uma tribo indígena, mas agora os índios haviam sido expulsos e local se tornara uma imensa mina de ouro. Havia cerca de 30 homens trabalhando no garimpo. Muitos deles iam para a cidade atrás de mulher, mas isso atrapalhava a produção. O novo dono das terras decidira que o melhor era trazer as mulheres até eles. Meninas foram compradas ou raptadas em cidades próximas e levadas para o garimpo. No começo eram apenas duas, mas agora já era possível contar uma dúzia delas. Ficavam ali até que se decidisse que não eram mais úteis. Então eram abandonadas na floresta...

* * *



A Rainha pegou a menina em seu colo e chamou as cortesãs para que trouxessem comida e sucos para ela. A menina comeu como uma desesperada, tanto por estar com fome, quanto pelo jantar estar uma delícia.
A pequena Maíra aprendeu que estava no reino das Amazonas. Soube que as mulheres estavam lá há tanto tempo que ninguém se lembrava mais de onde tinham vindo.
Durante muito tempo, elas viviam isoladas, tendo contatos esporádicos com os índios. Os mais fortes e virtuosos entre eles eram escolhidos para acasalar com as amazonas. Todos os anos eles saiam de suas tribos e ficavam parados à frente do grande portão, esperando pela autorização para entrar. Depois eram levados para um pátio, onde as mulheres os escolhiam. Passavam a noite com elas. Em troca dos favores sexuais, ganhavam um pequeno sapo, o muiraquitã, feito de uma pedra verde e lisa que não era encontrada em nenhum outro local. Os portadores do muiraquitã eram admirados e invejados por todos os outros. Era a mais alta distinção que podiam alcançar.
No ano seguinte, eles voltavam no mesmo dia à cidade das amazonas. Se o fruto da noite anterior era uma menina, era educada entre as guerreiras. Se fosse homem, era devolvido ao pai, para ser criado entre os índios.
Certa vez os índios vieram pedir ajuda. Estavam sendo atacados por homens altos, de pele clara e cheiro terrível. “Parece que nunca tomam banho”, comentou o pajé.
A Rainha ordenou que todas se preparassem para o combate. Levaram dois dias para chegar ao rio no qual os invasores navegavam. As amazonas deram a eles a oportunidade de fugirem, mas eram idiotas e se prepararam para a guerra. Logo uma chuva de flechas voou sobre eles. Mas não eram flechas comuns. Nada, nem mesmo as fortes roupas alcochoadas ou as armaduras pareciam impedir que elas se cravassem na pele. Os europeus ainda tentaram atirar, mas logo entraram em debandada, totalmente atônitos.
A rainha Janaina contava essas histórias à pequena Maíra e ria da covardia dos homens brancos. Depois dava-lhe um beijo de boa noite e saia do quarto.
A pequena acordava cedo. Embora fosse a filha adotiva da Rainha, era educada junto com as outras. Participava dos treinamentos de combate, das corridas.
Rani, a instrutora de arco e flecha, era uma mulher pequena e magra, de cabelos e olhos negros. Parecia frágil, mas quando usava o arco, podia vencer qualquer um. Tinha um carinho todo especial por Maíra.
- Não use o arco. – dizia. Seja ele. Deixe que o arco seja uma extensão de seu próprio braço. Não olhe para o alvo, olhe para além dele. Sinta-o.
Às vezes, quando terminava uma lição, Rani se sentava ao lado de Maíra e conversava com ela sobre a vida.
- A vida é como o arco e a flecha. – assegurava. Nós somos o arqueiro. Há pessoas que não sabem em que estão atirando, que não conhecem o alvo. Essas, mesmo que acertem, jamais o saberão. Outras enxergam apenas o alvo, e não percebem o que está além dele. Essas pessoas acham que sabem no que estão atirando, mas não sabem. Suas setas são cegas.
Maíra também de afeiçoou a Nara. Essa, ao contrário de Rani, era enorme e forte como um touro. Tinha olhos negros enormes, que impressionavam a menina. “Olhos de boi”, pensava ela. Sua arma predileta era uma borduna enfeitada com motivos indígenas. Era tão pesada que Maíra não conseguia nem mesmo levanta-la. No entanto, a giganta andava com ela para cima e para baixo, como se fosse feita de isopor.

* * *

O feitor acordou com um barulho estranho. Pareciam ser gritos abafados de moças e gemidos de homens. Sentou-se na cama e esfregou os olhos, como se tirasse areia deles.
Tinha dormido com a roupa de trabalho, inclusive as botas, e tudo à sua volta parecia emitir um cheiro misto de suor e chulé.
- Droga! Os homens devem ter aproveitado para fazer a festa antes do tempo...
Levantou-se. Suas mãos tatearam no escuro, procurando o interruptor. ]
Há meses estava ali, no meio da floresta. Ao contrário dos outros feitores, não gostava de ir para a cidade grande. Estava economizando. No final, teria dinheiro o bastante para comprar um fazenda e só então sairia daquele inferno.
Abriu a porta e tudo lhe pareceu estranhamente misterioso. Se os homens estivessem realmente se divertindo com as garotas, ouviria gritos de prazer e música brega em alto volume.
Também era estranho que as ruas estivessem vazias.
Ao dobrar uma esquina, mal pôde acreditar em seus olhos: um de seus homens estava sendo imobilizado por uma mulher. Não, não era nem mesmo uma mulher. Era antes uma garota, de no máximo 17 anos. Era alta, não muito alta. À luz do luar seus cabelos curtos e lisos pareciam loiros, mas André concluiu que eram provavelmente castanhos. Estava vestida com uma espécie de armadura de ouro, com motivos indígenas e penas coloridas.
O feitor não esperou por explicações. Dando um grito que paralisou a menina, ele avançou a passos largos e a agarrou. Agora que tocava em seu corpo, a menina parecia ainda mais frágil. Seus seios mal apareciam abaixo da roupa. André tentou imaginar como ela havia sido capaz de imobilizar um homem. Mas não gastou muito tempo com considerações. Havaí movimento mais à frente. Levando a moça consigo, ele se aproximou da casa em que ficavam presas as mulheres. O que viu o espantou definitivamente. Várias mulheres vestida como a menina libertavam as prostitutas, enquanto os homens, peões fortes, acostumados com serviço pesado, jaziam pelo chão, entre gemidos de dor.
- Parem! – gritou André. Vão todas para a casa, ou eu quebro o pescoço da menina!
As mulheres paralizaram, sem saber o que fazer. Algumas prostitutas fizeram menção de voltar, mas desistiram.
Uma das guerreiras deu dois passos à frente.
- Largue a menina! – ordenou ela, segurando uma enorme borduna.
- Se der mais um passo, eu a mato. – ameaçou a feitor.
Ficaram os dois parados, olhando um nos olhos do outro. Durou um minuto, mas pareceu uma eternidade. Os dois gigantescos antagonistas se estudavam, como num jogo em que os dois jogadores têm medo de fazer o primeiro lance.
De repente os olhos do feitor se arregalaram. Alguém estava segurando seu pescoço. Houve, em seguida, um som de osso quebrado. O homem desabou, como um saco que perde a sustentação. Sua coluna estava quebrada.
Atrás dele, uma índia vestida de rainha permanecia impassível.

A menina e a Rainha olhavam o nascer do sol.
- Desculpe, mãe, por ter colocado a missão em perigo. – murmurou a moça.
A mulher a abraçou.
- Oh, meu bebê... não se desculpe. Em nenhum momento perdemos o controle. Você ainda é nova, está aprendendo...
- O que vai acontecer com as mulheres que libertamos?
- As que quiserem voltar para casa, serão levadas até a cidade mais próxima, onde serão encaminhadas para suas famílias. Mas a maioria não tem para onde voltar. Algumas são órfãs... outras foram vendidas por suas próprias famílias... essas vão conosco e se tornarão guerreiras.
- Mãe, quando vou participar de uma nova missão?
- Em breve, muito em breve. Agora, vamos voltar para casa...

EPISÓDIO 1 – UMA VELA SOB A CAMA


Naquele dia, Marcos acordou estranho. A realidade parecia bizarra, como se ele tivesse tomado algum tipo de alucinógeno. Quando se levantou, percebeu que estava com uma dor de cabeça terrível. Para piorar, o vizinho tinha colocado o rádio no volume máximo.
Marcos foi até o banheiro, tomou banho, molhando bastante a cabeça, na esperança de aliviar a cefaléia, mas a dor só aumentava e o som do vizinho parecia cada vez mais alto. Voltou para o quarto com a toalha enrolada na cintura, desligou o ar-condicionado e colocou a roupa lentamente, como se qualquer movimento brusco pudesse piorar as coisas.
Sua mulher estava na cozinha, terminando de preparar o café.
- Oi querido. – cumprimentou ela com um sorriso. Tudo bem?
- Não. Acordei com uma dor de cabeça terrível... e esse vizinho não abaixa esse rádio...
- Que rádio?
Marcos olhou para ela como se olhasse para um palhaço e tentasse descobrir se ele estava tentando ser engraçado ou não.
- Como assim, que rádio?
- Eu não estou ouvindo nada.
- Surdez é um problema sério...
Seu braço bateu na xícara e ela caiu no chão, quebrando em mil pedacinhos que pareciam reluzir, refletindo a luz da lâmpada.
- E cegueira é pior ainda. – rebateu Cristina, mas logo percebeu que algo sério estava acontecendo.
Marcos abaixou-se para recolher os cacos.
- Desculpe, é essa dor de cabeça...
A mulher adiantou-se a ele, pegando a pá e uma vassoura.
- Deixa que eu limpo... tem certeza de que pode ir trabalhar? Não quer tirar o dia de folga e aproveitar para ir ao médico?
- Não. Não é nada. Já vai passar.
- Vocês homens acham que são super-homens. Só começam a se cuidar quando estão para morrer...
Marcos ouviu o comentário em silêncio, enquanto tomava café com biscoitos.
Separaram-se no portão. Cristina trabalhava em uma escola e ele em um banco. Em locais diferentes, ônibus diferentes.
No ônibus, o som do rádio parou, mas alguém estava mascando chiclete e fazia um barulho escandaloso com a boca. Marcou olhou à volta, esperando que alguém se manifestasse contra o mal-educado, mas ninguém dizia nada. Era como se não estivessem ouvindo o barulho alto que alguém estava fazendo com a boca...
No banco a dor diminuiu um pouco, mas o barulho o deixava irritado e assustado. Era o slap slap mecânico de alguém contando dinheiro, era alguém com sarna, cuja coceira fazia barulho como uma lixa...
Um homem na fila estava vestido de preto e de óculo escuros. Ele ajeitava os óculos e isso era um barulho irritante. Na hora em que ele se aproximou e entregou a conta para pagar, as mãos dos dois se tocaram. Foi como um pequeno choque. No mesmo momento, Marcos ouviu uma voz: “Tudo pronto para o assalto?”.
Ele olhou à volta, tentando identificar a origem do som, mas não era ninguém no banco. Olhou para os outros caixas ninguém parecia ter ouvido. De onde saíra aquela voz? Instintivamente, ele apertou o botão de alarme abaixo do balcão e, ao mesmo tempo, chamou o gerente. O cliente vestido de preto olhava-o, intrigado.
- O que foi? – perguntou o gerente.
- Uma intuição. Peça para os seguranças redobrarem o cuidado.
- Você virou mãe Diná? Está vendo alguém suspeito?
- Não, mas faça o que eu disse.
- Está bem. Se isso deixa você mais calmo, vou falar com os seguranças...
Uma velhinha entrou pela porta lateral, carregando uma sacola. Dali a pouco três homens entraram pela porta giratória e se aproximaram dela. Já iam tirando as armas da sacola quando o vigia encostou a pistola na nuca de um deles.
- Quietinho aí. – disse o vigia. E você aí, vovó: coloque a sacola no chão, bem devagar.
A velhinha se abaixou lentamente e depositou a sacola no chão. Um dos bandidos ainda tentou se abaixar para pegar a sacola, mas foi atingido por um tiro vindo de outro vigia. Os outros talvez fossem resistir, mas desistiram quando ouviram as sirenes.
Na hora do almoço, os outros congratulavam Marcos:
- E aí, rapaz, conta como você desconfiou do assalto.
- Sei lá, não dá para explicar...
- Está se fazendo de estrela...
Marcos riu e continuou a comer. A dor de cabeça tinha passado quase que completamente e os ruídos já não o incomodavam tanto.
À tarde, quando voltava para casa, ele passou por uma igreja e, por algum motivo, resolveu entrar. Não era católico ou religioso, mas a igreja estava vazia e ele precisava de paz. Sentou-se num banco na frente do altar e rezou uma oração sem palavras. Os últimos acontecimentos rodopiavam em sua mente, como um turbilhão.
Então, uma voz masculina sussurrou dentro de sua mente:
- Não se acende uma vela para colocá-la sob a cama.
Um arrepiou percorreu seu corpo e ele sentiu uma presença à sua esquerda.
- Aqueles que estavam perdidos serão achados. – murmurou uma voz feminina em sua mente.
Um novo arrepio o percorreu e ele sentiu outra presença no seu lado direito.
- O que aconteceu hoje é apenas uma amostra dos talentos perdidos e encontrados.
Uma parte de Marcos dizia que era só imaginação, criação de sua mente, mas outra parte sentia que era verdade.
Então as vozes pararam, mas ele sentiu como se não estivesse sozinho na igreja.